A TRAGÉDIA DE MARIANA (MG) E O PROBLEMA DO SOFRIMENTO (Uma abordagem do ponto de vista teológico)

“E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém?” [1].

Praticamente todos os moradores do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), que sobreviveram ao rompimento de duas barragens na semana passada estão hospedados em hotéis e pousadas do município, já que a maioria perdeu tudo – casa, carro, móveis, documentos, fotos, memórias[2]. As perdas de vidas até o momento somavam 06 pessoas e mais 21 desaparecidas.

O país já vem sofrendo muito com os problemas causados pelos desmandos políticos, pela corrupção, que tem trazido desemprego e muitas tragédias familiares; pessoas sofrendo pela perda de seus entes queridos já tem se tornado “normal” no Brasil, seja por acidentes de trânsito, assassinatos, tragédias como as da Boate Kiss[3] (242 mortos), e o que nos entristece ainda mais é o conformismo da sociedade em relação ao sofrimento, pois muitos exigem apenas a punição dos culpados, sem exigirem uma mudança de atitude das autoridades em relação a falta de políticas públicas que tornem nossa nação mais segura.

Essa cultura de apenas buscarmos culpados, sem que mudemos de atitude, vem do Direito Romano que influenciou principalmente a sociedade ocidental, pois com o positivismo imposto pelas leis sempre queremos saber quem “não fiscalizou, quem esqueceu a chave ligada, se estava com a licença em dia”, etc., etc., e isso apenas satisfaz exteriormente as vítimas, sem que seu sofrimento seja amenizado efetivamente.

O que me levou a escrever este artigo foi o relato de uma senhora na TV, parente de vítima desse acidente na mineradora em Mariana, MG, onde ela disse que “fizeram o resgate da vó, mas o neto (ou neta) estava soterrado (a) e mesmo com o pedido para que Jesus salvasse o netinho (a), Jesus não salvou”. Ora, a dor de se perder um parente é muito grande e também é natural uma pessoa pedir livramento a Deus, mas o que não se pode aceitar é que alguém possa querer culpar o Criador pelo sofrimento; penso que não é culpa de Deus que as pessoas sofram nas enchentes quando, por falta de políticas públicas, construíram suas casas às margens de riachos; pelo mesmo motivo, não é sua culpa quando nas enxurradas casas são soterradas porque são construídas em locais impróprios, como encostas de morros ou sobre antigos lixões.

“Se Deus fosse bom, Ele desejaria fazer suas criaturas perfeitamente felizes, e se Deus fosse todo-poderoso poderia fazer tudo o que quisesse. Mas as criaturas não são felizes. Portanto, falta a Deus bondade, poder, ou ambas essas coisas (TOMÁS DE AQUINO)”. Este é o problema do sofrimento[4] em sua forma mais simples.

É importante para o cristão estudar sobre o problema do mal pelos seguintes motivos: o problema do mal é o único argumento a favor do ateísmo, é universal e é prático. Dentre as objeções contra a fé, tais como a hipocrisia e a iniquidade entre os crentes, e a inconveniência e o conflito do ego de cada ser humano quando tem de se arrepender de pecados que considera aprazível. Entretanto nada disso prova que Deus não existe.

É bastante comum, numa discussão com um incrédulo, ouvir dizer que Deus, se existisse e fosse bom, faria isto ou aquilo; e então, se declaramos que o ato proposto é impossível, recebemos a resposta: “Mas pensei que Deus fosse capaz de fazer tudo”.

Muitas respostas têm surgido para o problema do mal: Ateísmo – Deus não existe; panteísmo – Deus é bom, e não maligno; naturalismo moderno e o politeísmo antigo – negam que Deus é todo-poderoso. Já o idealismo se apresenta como a negação do verdadeiro mal, e se apresenta de várias formas em filosofias e religiões (hinduísmo, ciência cristã, etc.), bem como em grande parte do pensamento da Nova Era; por fim, o teísmo bíblico (presente no cristianismo ortodoxo, no judaísmo e no islamismo) afirma todas as quatro proposições (Deus existe, Deus é totalmente bondoso, Deus é todo-poderoso, o mal existe), mas nega que sejam contraditórias.

Embora não esgote o assunto aqui, precisamos entender que o mal não é um ser; caso fosse, o problema do mal seria insolúvel, pois Deus o criou, logo não seria totalmente bondoso. Que o mal também não é uma coisa, pois as coisas não são malignas em si próprias. O mal é real, mas não é uma coisa real; ele não é subjetivo, mas também não é uma substância. Agostinho definiu o mal como o amor desordenado, uma vontade desordenada, um relacionamento errado, uma inconformidade entre nossa vontade e a vontade de Deus. O anjo de luz, ao ser criado por Deus, era bom, pois quem é perfeitamente bom e santo não pode ter criado seres ímpios e miseráveis. Mas tornou-se ruim, conforme João 8:44 “Vós tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele é homicida desde o princípio, e nunca se firmou na verdade, porque nele não há verdade; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio; porque é mentiroso, e pai da mentira.” Pergunta-se como eles puderam pecar? Que os anjos viviam sob uma lei específica para eles fica claro pelo fato que pecaram; e, se estando sob essa lei, foi-lhes possível violá-la, eles deviam estar em provação e ser responsáveis perante Deus. Essa mensagem parece óbvia também para nós, humanos, presente lá em Gênesis 1 e 3, onde vemos o relato da criação de Deus e o do pecado da humanidade.

O mal moral é um equivalente quase idêntico ao Pecado. Contudo, também devemos pensar no mal natural, isto é, as coisas más que acontecem à parte da intervenção da vontade pervertida dos homens, como os desastres naturais, as inundações, os incêndios, os terremotos, as enfermidades e, finalmente, o pior de todos os males, na opinião de muitos, a morte física. Os teólogos biblicamente orientados acreditam que o mal natural é resultante do mal moral (pecado). Porém, é difícil ver como o pecado humano faz a crosta terrestre deslizar, provocando os abalos sísmicos, quando sabemos que há explicações naturais para esses acontecimentos. Todavia, se o pecado humano não é a causa direta do mal natural, Deus pode ter sujeitado a natureza a certa desordem, como uma medida punitiva. E um dos resultados da redenção, quando estiver completa, será precisamente a reversão dessa maldição contra a natureza: “(…) a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção (…) (Rom. 8:21)”.

Não se pode duvidar que o pecado e o castigo, que podem assumir muitas formas, às quais ansiamos por chamar de acontecimentos funestos, estão interligados entre si. Ver Mat.10:28; 23:33; Luc.16:23; Rom.2:6 e Apo.20.

A ira de Deus é um dos elementos constituintes de seu amor, realizando coisas como nenhum outro ato divino é capaz de fazer. Alguns filósofos e teólogos, como Tomás de Aquino, têm defendido a ideia de que o mal é a ausência do bem, tal como as trevas são a ausência da luz. Talvez isso possa servir de explicação acerca de certos males, mas, há outros tipos de males que não podem ser descritos nesses termos. Por exemplo, um “matador de aluguel” não pode estar envolvido em algo meramente passivo.

A expiação e perdão de pecados são oferecidos na missão de Cristo, desse modo, a graça divina cancela a punição eterna e, em muitos casos (mas não sempre) desvia a necessidade de punições temporais contra os erros praticados desde então. Ver Mat.9:22; Mar.6:56; Luc.8:48; 17:19. Em muitos casos, para efeito de retribuição e purificação, o pecado é acompanhado por suas consequências temporais, mesmo quando o pecado é perdoado. Isso concorda com a lei da colheita segundo a semeadura (Gál. 6:7,8). O propósito dos sofrimentos é remedial, mesmo quando esse também é retributivo, como no hades (I Ped.4:6; ver também Heb.12:8, nessa conexão).  A doutrina do juízo divino depende da maldade ou da retidão praticada por cada indivíduo (Apo. 20; Rom. 2:6), pois Deus não pode deixar a maldade passar despercebida. Algo precisa ser feito a respeito (Rom.1:18) e o preço (sentença) já foi dada por Ele: “O salário do pecado é a morte (Rom. 6:23).  A Bíblia declara a realidade do mal, fazendo contraposição à teoria que diz que o mal é apenas o bem mal aplicado, ou a privação do bem. Na verdade, e de acordo com a Bíblia, há uma maldade voluntária, aberta e maligna, que sempre foi uma maldição para a raça humana. O primeiro capítulo da epístola aos Romanos, com suas detalhadas descrições de uma longa lista de vícios humanos, está falando sobre um mal real, e não sobre a mera ausência do bem.

Ao citar acima o texto bíblico dito por Jesus, em Lucas 13:4, fica bem claro que o fato de pessoas morrerem em tragédias, acidentes, etc., não é por serem mais pecadoras do que aquelas que morrem de forma natural, pois o que é certo é que todo o ser humano precisa passar pela morte física (Heb. 9:27), mas não necessariamente pela morte espiritual (afastamento eterno de Deus).

Nós fizemos o mal. A solução para o problema do mal foi encontrada pelo próprio Deus que, em seu filho Jesus Cristo/Yeshua, através da nossa fé em Seu sacrifício expiatório é a única esperança para retirar nosso pecado e nossa culpa: João 3:16 “ Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

[1] Bíblia Almeida Revista e Corrigida 2009 (ARC). Evangelho de Lucas 13:4. Copyright 2009 Sociedade Bíblica do Brasil. Todos os direitos reservados / All rights reserved.

[2] http://noticias.r7.com/minas-gerais/sobreviventes-de-tragedia-em-mariana-mg-falam-do-futuro-e-querem-reerguer-comunidade-10112015.

[3] http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/boate-kiss-242-mortos-um-ano-nenhum-preso.

[4] Enciclopedia_Champlin_vol_5 – P – R

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2 comentários sobre “A TRAGÉDIA DE MARIANA (MG) E O PROBLEMA DO SOFRIMENTO (Uma abordagem do ponto de vista teológico)

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