SOU ÚTIL OU INÚTIL?

útil ou inútilQuando vemos na natureza cada pássaro, árvore, peixe, inseto, etc., cumprindo sua função, logo identificamos sua utilidade; o conceito de útil, portanto, está na serventia, nos benefícios que cada um desses importantes agentes naturais traz para o mundo. Mas, e o ser humano? Passa sua juventude estudando para assumir seus compromissos sociais, quais sejam seguir uma carreira, constituir família, criar filhos, entre tantos outros papéis. Feito tudo isso, satisfaz o conceito de utilidade ou ainda assim pode ser considerado inútil?

Não existe tanta literatura tratando do tema, talvez por ser algo para não se preocupar, pois os seres humanos vivem ocupados em atender objetivos imediatos de bem-estar para si e seus familiares, não restando tempo para refletir sobre a necessidade de servir aos demais seres com os quais compartilham os mesmos recursos naturais. Mas, uma vez que provavelmente a principal característica que nos diferencia de todos os demais seres vivos seja a transcendência, isto é, um princípio divino colocado na consciência de cada um, que nos faz ter fé, acreditar que há algo superior, além da limitação do mundo físico, obriga-nos a refletir se, na revelação dessa eternidade implantada em cada um de nós, não seremos questionados quanto a nossa utilidade durante nossa existência terrena?

Jesus Cristo nos apresenta no Evangelho dois contextos nos quais a ideia de pessoa inútil aparece, de forma brilhante, com autoridade peculiar, mas sem ofender ou praticar assédio moral[1].

O primeiro é o de Mateus, capítulo 25:14-30:

“Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos (empregados), e entregou-lhes os seus bens. E a um deu cinco dinheiros, e a outro dois, e a outro um; a cada um segundo a sua capacidade; e, depois disso, ausentou-se logo para longe. Ora, tendo ele partido, o que recebera cinco dinheiros negociou com eles, e ganhou outros cinco. Da mesma sorte, o que recebera dois, que veio a ganhar também outros dois. Mas o que recebera um, foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles! Então aproximou-se o que recebera cinco dinheiros, e trouxe-lhe outros cinco dinheiros, dizendo: Senhor entregaste-me cinco; eis aqui outros cinco dinheiros que ganhei com eles. E o seu senhor lhe disse: Muito bem, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. Chegando também o que tinha recebido dois dinheiros, disse: Senhor entregaste-me dois; eis que com eles ganhei outros dois. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu Te conhecia, e sei que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste; e, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Servo mau e negligente; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros. Tirai-lhe, pois, o dinheiro; e dai-o ao que tem os dez. Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas, ao que não tiver, até o que tem ser-lhe-á tirado. Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.”

O segundo está em Lucas, capítulo 17:7-10:

“E qual de vós terá um servo a lavrar ou a apascentar gado, a quem, voltando ele do campo, diga: Chega-te, e assenta-te à mesa? E não lhe diga antes: Prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me até que tenha comido e bebido, e depois comerás e beberás tu? Porventura dá graças ao tal servo, porque fez o que lhe foi mandado? É certo que não! Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer.”

No evangelho de Mateus a ideia positiva sobre o que vem a ser servo bom, é viver sem medo de expressar e aumentar o dom da Graça em nossa vida; o que significa viver a plenitude de nossos dons, talentos, recursos e possibilidades; sendo que a ênfase recai sobre a alegria no servir que dá sentido ao existir. Já o servo inútil recebe um severo castigo.

Caio Fábio[2] nos brinda com uma comparação da personalidade dos dois tipos de servos das narrativas (parábolas) de Jesus, dos quais passo a descrever uma parte que serve ao propósito deste texto:

“E quem é esse Servo Inútil conforme Jesus declarou em Mateus? Ora, é aquele que crê em Deus com raiva de Deus; e que projeta em Deus sua própria raiva de ser e existir; e que apenas crê em Deus como um fato inegável, porém desgraçado; visto que tal Deus é por tal pessoa visto como cruel e inimigo da alegria e da aventura de ser e crer; e, por tal razão, essa pessoa transfere para Deus sua própria visão mesquinha da vida, buscando assim não perder o que seja de Deus; porém, sem entender que o que Deus quer não é o dom que Ele deu, mas sim que a pessoa cresça conforme a confiança que tenha no fato de que Deus é amor, e também quanto à realidade de que Ele nunca dá sem que peça depois, e também nunca pede mais do que a capacidade de cada um de desenvolver. Aqui em Mateus o que faz um Servo Inútil é a amargura que se faz transferir para Deus e para a vida! Sim! Pois toda amargura é paralisante!…    Já no evangelho de Lucas o Servo Inútil é aquele que é pago para fazer as coisas, mas, ainda assim, quer que ao chegar de suas tarefas o patrão se levante para agradecer! Sim! Trata-se daquele tipo de assalariado que nunca é voluntário para nada, mas que deseja que o Patrão seja grato por ele fazer apenas aquilo que é pago para fazer! Desse modo o Servo Inútil é aquele que recebe o dom da Graça e o enterra sob a alegação de que servir a Deus é coisa dura e arriscada; ou, então, é aquele que serve a Deus e à vida na esperança de ser visto como herói de algo que nada mais é do que mera obrigação; ou seja: de algo cujo pagamento é a Graça de fazer. Servo Inútil é todo aquele que diz: “Não fiz nada, mas não atrapalhei… Afinal, Deus é duro!”  Ou então: “Fiz tudo o que me mandaram. Recebi muito por isto. Mas onde está o reconhecimento?” Os amargurados fazem a primeira declaração com muito orgulho…Os narcisistas, legalistas, justicistas e autorreferentes fazem a segunda declaração com cobrança ingrata…

Amargurados e Narcisistas não ganham nada de Deus!

O Servo Bom é aquele que se sabe tão inútil, que, por tal razão, vê em toda chance de servir algo que é apenas um indizível privilégio!”

Champlin[3] cita que o escravo tinha de realizar o seu trabalho sem queixumes e sem relutância. O repouso só vinha depois de todo o serviço, e para isso não havia pressa. O senhor de escravos era primeiro em tudo e o escravo nem ao menos era secundário, se é que ao menos era considerado alguma coisa. Tinha a obrigação de cingir-se, isto é, amarrar a comprida veste externa oriental, em torno da cintura, a fim de que essas roupas frouxas não viessem a servir de empecilho em seu serviço. Não podemos deixar de relembrar que o serviço prestado por Jesus aos seus discípulos também é apresentado nesses mesmos termos. Na passagem de Lc 12:37 lemos sobre o admirável quadro mental do mestre a cingir-se, preparando-se para servir uma refeição aos escravos, porquanto esse será o galardão em vista de um serviço fiel. Em outras palavras, o próprio Jesus, na qualidade de senhor, haverá de servir aos seus discípulos. Assim também Jesus, o grande Senhor, mas também o grande Servo ilustra qual é o verdadeiro e autentico serviço cristão, procurando demonstrar a atitude de interesse pelos outros, que deve ser mantida como uma expressão espiritual da personalidade cristã. Uma das aplicações desta parábola é que os indivíduos que só servem a Deus por causa das ordens baixadas, mas sem qualquer espírito real de dedicação e de amor, são automaticamente, servos inúteis. Ataca a soberba humana, que está sempre inclinada a considerar o seu serviço particular como algo de especial, que merece a atenção do grande Deus. Salienta que o dever precisa ser absoluto, sem qualquer ligação com o que poderia ser dado ao trabalhador cristão em recompensa. Esta parábola revela apenas uma parte da realidade. Naturalmente que não expõe a verdade inteira sobre Deus e a sua maneira de tratar com os homens, porquanto as Escrituras ensinam que haverá galardões, e também ensinam o grande valor da alma, pois os homens haverão de ser transformados segundo a própria imagem de Cristo, e dessa maneira compartilharão de sua natureza essencial (a natureza divina) na qualidade de filhos de Deus, conduzidos a gloria. (Rm 8:29 e Ef 3:19, II Pe 1:4). Nenhuma menção é feita aqui da falha humana, embora essa seja muito vasta; e nem há menção do amor de Deus que se mostra abundante para com o homem, embora esse amor seja muito mais vasto do que o fracasso do homem. Finalmente, devemos observar que esse serviço é prestado em perfeita liberdade, pois Ele disse: “Já não vos chamarei mais de servos (empregados), (…) mas de amigos. Jo 15:15”

Por último, quero fazer referência a um texto do livro de Pape[4], citando que o fato de ser o evangelho um convite que alguns aceitam e outros rejeitam pode criar a ideia de que Jesus é o Senhor só dos crentes. A Bíblia ensina claramente que no último dia todos os homens o aclamarão como Senhor (Adonai) queiram ou não. Reis, presidentes, ditadores, generais e todos os reitores e professores de todas as universidades, todos os estudantes de todas as cores, políticas, inclusive você, vão “confessar que Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus Pai” (Fp 2:11). Eu te convido para que Nele torne tuas obras “úteis”; entrega teu caminho a Ele, pois todos nós nos desviamos e juntamente nos fizemos “inúteis”, conforme Rm 3:12.

“As virgens néscias e o servo inútil foram santos em comparação com milhões, hoje em dia, que, a despeito de sonharem com um céu interminável, só servem para um inferno sem fim”. (Adam Clarke)

[1] Assédio moral: a violência perversa do cotidiano. (…) em um local de trabalho temos que entender toda e qualquer conduta abusiva manifestando-se, sobretudo, por comportamentos, palavras, atos, gestos, escritos que possam trazer dano à personalidade, à dignidade, ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa; texto da web: http://jp.camaradojapao.org.br/pdf/tereza1.pdf.

[2] Texto disponível na web: http://www.caiofabio.net/conteudo.asp?codigo=05717

[3] CHAMPLIN. O Novo Testamento – Lucas – João. Vol 2

[4] PAPE, Dionísio. Cristo é o Senhor. São Paulo: ABU Editora, 2003, p. 33.

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