DEPRESSÃO – Que monstro é esse?

A compreensão do ser humano, do seu comportamento, com seus estímulos e reações, não é tarefa fácil devido ao mundo caótico em que vivemos, com violências de toda a ordem, consumismo, stress, medos, etc., exigindo de todos nós uma preparação bem fundamentada e a serviço do nosso semelhante. A depressão está aí, antiga, mas mais letal do que nunca, numa cultura que está sempre em mudanças, gerando confusão nas pessoas e em seus relacionamentos, dando um árduo trabalho para manter-se o equilíbrio emocional e psíquico.

MORTES POR DEPRESSÃO CRESCEM 705% EM 16 ANOS NO BRASIL

Segundo dados do sistema de mortalidade do Datasus, que poderão ser vistos na reportagem completa[i], em 16 anos, o número de mortes relacionadas  à  depressão cresceu 705% no Brasil. Estão incluídos na estatística casos de suicídio e outras mortes motivadas por problemas de saúde decorrentes de episódios depressivos. No Brasil, a faixa etária correspondente à terceira idade é a que reúne as estatísticas mais preocupantes. No caso de mortes relacionadas  à  depressão, os maiores índices estão concentrados em pessoas com mais de 60 anos, com o ápice depois dos 80 anos.

O INCÔMODO DA DEPRESSÃO[ii]

Depressão é a quase completa capitulação do ânimo, do bem-estar, da segurança emocional, da autoconfiança, da alegria, da vontade de viver.

O adjetivo incômodo é brando demais. Depressão é muito mais do que incômodo. Seria melhor escrever: a agrura ou o tormento da depressão, mesmo que algumas sejam mais brandas que outras! Suas causas são complexas e podem ser sociais, emocionais, espirituais ou neurológicas. A morte de um ente muito próximo, uma enfermidade grave, a perda de um emprego, uma decepção amarga, um susto financeiro, uma traição conjugal, o envolvimento de uma pessoa da família no mundo das drogas, os maus-tratos contínuos de um cônjuge contra o outro, o ciúme justificado ou não de um cônjuge e muitas outras coisas podem levar alguém à depressão. Independentemente de tudo isso, a depressão pode ocorrer. Mas a depressão nunca é uma fraqueza moral. Pode, em alguns casos, ser inicialmente provocada por uma conduta errada ou por falta de saúde espiritual, mas o deprimido não pode ser tratado como um pecador — pelo menos antes de ser curado da depressão. Qualquer providência em contrário só agrava o problema. Prova disso são a depressão do patriarca Jó e a depressão do profeta Elias, dois notáveis personagens da história do Antigo Testamento.

A vontade de morrer e a autodepreciação[iii] extrema são ingredientes de quase toda depressão.

Muitos outros servos de Deus, como Lutero e Calvino, os dois mais notáveis reformadores, passaram por momentos depressivos. Quando Calvino ficou viúvo aos 40 anos, depois de nove na companhia de Ialete, ele escreveu a um dos seus maiores amigos, o pastor Pierre Viret: “Conquanto a morte de minha esposa tenha sido demasiadamente dolorosa para mim, até agora tenho dominado meu pesar da melhor maneira que consigo […] Se não me fora concedido um forte autocontrole, eu não haveria suportado tanto”.

No formidável livro ilustrado “Eu Tinha um Cão Negro – seu nome era depressão”, o neozelandês Matthew Johnstone afirma que a depressão “é um demônio de quatro patas onipresente, que permeia absolutamente tudo, como uma gota de tinta num copo d’água”. E um PhD em psiquiatria de uma universidade australiana, prefaciador do livro de Johnstone, acrescenta que “uma em cada quatro mulheres e um em cada seis homens irão, em algum tempo da vida, sofrer uma crise de depressão clínica”. Para ele, “existe uma terceira certeza na vida, além da morte e dos impostos: todos nós ficaremos deprimidos”.

Nem sempre é possível evitar a depressão por meio de medidas preventivas, embora oportunas. Mas há cura para a depressão e ela deve ser buscada de maneira sábia e persistente. Há uma variedade enorme de providências cabíveis. A depressão pode ser afastada por meio de cuidadosos e equilibrados exercícios espirituais (gritos de socorro dirigidos a Deus na prática da oração, confissão da fragilidade, leitura devocional, apropriação de promessas bíblicas etc.), por meio de assistência terapêutica (oferecida por amigos íntimos, parentes sensíveis, conselheiros capazes e pastores de almas) ou por meio de assistência médica (psicológica e psiquiátrica). A medicação apropriada e na dosagem recomendada nunca deve ser descartada.

Pierre Viret, pastor em Neuchâtel e, depois, em Lausanne, ambas na Suíça, tinha apenas 35 anos quando também perdeu a esposa após uma enfermidade prolongada. Além da dor da viuvez, ele estava sobrecarregado de problemas em seu ministério. Em 1546, Viret escreveu a Calvino em Genebra: “Estou completamente desesperado e prostrado com aquela flecha de aflição [a morte da esposa]. O mundo inteiro me parece um fardo. Nada, absolutamente nada, pode aliviar a angústia de minha mente”. O que João Calvino fez para socorrer o amigo? Mandou-lhe uma carta intimando-o a vir o mais rapidamente possível a Genebra para, na companhia dele e de outros pastores, libertarem sua mente não só da tristeza, mas também de todos os aborrecimentos acumulados até então. Calvino prometeu não impor-lhe cargo algum e deixá-lo totalmente à vontade. Deu-lhe também a sua palavra de que nem ele nem os cidadãos de Genebra lhe seriam inconvenientes.

Os dois amigos agiram de forma muito cristã para superar a fase depressiva do primeiro: Viret pôs a sua dor para fora e Calvino a tomou em seus braços!

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A MORTE DE ROBIN WILLIAMS – UMA OPORTUNIDADE DE OLHAR PARA A DEPRESSÃO NAS ESCRITURAS[iv]

(By Mel Lawrenz, Director of The Brook Network and creator of The Influence Project.)

“O espírito humano aliviará a sua doença, mas o espírito abatido quem o pode suportar?” (Provérbios 18:14).

A chocante notícia da morte por suicídio do ator Robin Williams deixou milhões de pessoas em todo o mundo com um mistério: como pode alguém conhecido por um sorriso fácil, que fez multidões de pessoas rirem ao ponto de irem às lágrimas, ficar tão perturbado e tirar a própria vida? Muitos estão perplexos, e há muitos outros que estão dizendo a si mesmos: se alguém soubesse o quão desesperadamente deprimido estou, eles também ficariam surpresos.

Eu escrevo como alguém que tem visto a depressão em inúmeras gerações em minha própria família, e como um pastor que oficiava nos funerais de pessoas que tiraram suas próprias vidas.

Muitos estão se voltando para as Escrituras Sagradas para entender, e se olharem bem, vão encontrar não só a esperança que as Escrituras oferecem, mas também a honestidade e a precisão com que representam uma das doenças internas mais comuns de todos os tempos: a depressão.

O rei Davi se desesperou da vida mais de uma vez. Não só temos dezenas de “salmos de lamento”, mas temos descrições fisiológicas dos efeitos do coração partido, como no Salmo 38: “Não há saúde em meu corpo…. minha culpa me cobriu, como um fardo pesado demais para carregar…. Estou completamente curvado e muito abatido… todo o dia eu ando lamentando…. Estou fraco e totalmente quebrantado…. meu coração bate, minha força me falta…. Sou como o surdo, que não pode ouvir, como o mudo, que não pode falar…. Estou prestes a cair, e minha dor está sempre comigo…. Senhor, não me desampare.”

Esta não é uma descrição do “sentir-se prá baixo”, ou triste, ou infeliz, mas sim, o que pode acontecer quando a tristeza se aprofunda em desespero e, em seguida, em uma condição física.

Mesmo as pessoas mais poderosas e bem-sucedidas podem ser abatidas na depressão. O profeta Elias venceu os falsos profetas de Baal no Monte Carmelo. Foi uma vitória impressionante por Deus. E, no entanto, fugindo da ira de Jezabel, Elias entrou em isolamento e orou: “Já tive o bastante, Senhor, toma a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais” (1 Reis 19: 4-5).

Deus não condenou Elias por ser necessitado e deprimido. Deus não disse: anime-se, homem. Onde está a vossa fé? Lance-lo fora. Em vez disso, um anjo de Deus veio, tocou Elias, e ofereceu pão fresco e um jarro de água (1 Reis 19: 5-6). Esta é a maneira que Deus é. “O Senhor está perto dos contritos de coração e salva os que têm espírito quebrantado” (Salmo 34:18).

Em um momento de desespero o profeta Jonas queria morrer: “Agora, Senhor, tira-me a vida, pois melhor me é morrer do que viver” (Jonas 4: 3).

E depois há Jó, cujas doenças e perdas profundas fizeram-no desesperar-se da vida, e sua esposa e “amigos” não o ajudaram. Tem sido dito muitas vezes que Deus não ofereceu respostas a Jó, para suas perguntas; mas em vez disso, Deus ofereceu-se a si mesmo.

Isto é o que Deus faz e o que devemos fazer um ao outro – ser uma presença solidária. O que torna a depressão profundamente perigosa é o isolamento. Muitas vezes alguém precisa ajudar a pessoa gravemente deprimida a se conectar com os recursos médicos e espirituais certos. Precisamos saber quem são as pessoas certas para fazerem essas conexões. Nenhum de nós deve desanimar se as nossas palavras bem-intencionadas não fizerem nada para ajudar um amigo deprimido. Esse pode ser o momento em que precisamos falar menos, e apenas estar lá.

Como um homem desesperado disse: “Ao que desfalece devia o amigo mostrar compaixão; mesmo ao que abandona o temor do Todo-Poderoso” (Jó 6:14).

 

[i] Texto disponível na Web em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/2014/08/mortes-por-depressao-crescem-705-em-16-anos-no-brasil-4577862.html

[ii] Texto disponível na Web em: http://www.ultimato.com.br/revista/347, acessado em 11 de junho de 2014.

[iii] Dizer que “vai se matar”, constitui-se a maior urgência psicológica de uma pessoa; deverá ser conduzida imediatamente para tratamento, segundo informam especialistas.

[iv] Texto disponível na Web em: http://www.thebrooknetwork.org/2014/08/14/robin-williams-death/

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