Creio, logo penso

É admirável a capacidade que temos hoje de trocar informações com pessoas do mundo todo e, a velocidade e o número de informações recebidas também nos deixam um pouco abismados; se não arquivamos ou salvamos imediatamente uma informação, passados uns cinco minutos estará perdida entre outras centenas de postagens em nosso aparelho midiático (PC, note, tablet, celular, etc.).

Hoje, enquanto os educadores se preocupam com a alfabetização dos pequenos, ou com as regras da crase, do uso do porque, etc., entre os jovens; mal sabem eles que seus alunos já se comunicam com pessoas do mundo todo, com japoneses, coreanos, indianos, e por aí vai, na maior naturalidade, com seus símbolos e gírias de uso universal. Questiono-me na dificuldade dos pais e professores em conduzir as crianças e adolescentes pelo caminho do equilíbrio em meio a esse imenso arquivo que é a internet; ela se tornou a principal fonte para o conhecimento.

Porém Cortela[i] (2008) alerta que, apesar de estarmos na Era do Conhecimento, nunca devemos confundir informação com conhecimento; a informação, para se tornar conhecimento exige critérios de escolha e seleção. Compara a internet a uma embarcação (Navio) que é conduzida pelo Capitão Ninguém, numa alusão a obra “Vinte Mil Léguas Submarinas”, de Júlio Verne. Também a compara com uma grande livraria ou uma feira do livro, onde alguém passeando entra em pânico ou fica com a sensação de “débito intelectual” diante da imensidão de livros sem saber o que está procurando. O que se percebe é que a maioria das pessoas está vivendo sufocada na ânsia de lerem, assistirem, ouvirem tudo; deixaram de navegar na internet e naufragaram. Sem critérios seletivos, o que se vê é uma falta de identidade muito grande; pessoas com milhares de amigos virtuais, mas que não conseguem se relacionar razoavelmente, pelo menos com duzentas pessoas, por razões óbvias de tempo, capacidade física e emocional. Antes de nos lançarmos nesse “mar” de informações deveríamos ter nosso “plano de navegação” bem definido: Quem sou? Onde quero chegar? Quem é o meu Deus? Que valores preciso desenvolver e praticar? Etc.

Rodolfo Gois[ii] fez um release sobre um livro e achei pertinente ao assunto que estou abordando, por isso, transcrevo-o abaixo:

Crer é também pensar. Esse é o título em português de um livro do ilustre John Sttot (Your Mind Matters, 1972). Um livro que todos devem ler. Um autor memorável. Um homem notório pelo que escreveu e pelo que viveu. Mais do que um simples título, “crer é também pensar” é um estilo de vida que salvaria muitos da ignorância, ingenuidade e irresponsabilidade no exercício da fé em nossos dias.

Durante algum tempo – ou melhor, durante muito tempo – vivemos um estilo de vida eclesiástica de inibição e (por que não?) proibição de algumas perguntas. Por muitas décadas eram dadas respostas a perguntas que ninguém fazia. As respostas eram prontas, como aquelas marmitas malfeitas que se comem sem a compreensão de como realmente aquela comida foi feita, geralmente insossa, pobre de nutrientes, sem sabor e pouco agradável.

Agora, porém, vivemos em um período em que as perguntas são feitas, não importa a quem, em busca de respostas. Se não é a igreja, as respostas virão das redes sociais, das rodas de amigos, dos blogs e dos buscadores da internet. Não que tais perguntas não fossem feitas antes, mas agora não há mais limites para as opções de respostas e nem o pudor ou vergonha que impeçam que elas sejam digitadas, faladas, perguntadas.

Talvez o receio e o impedimento de que perguntas sejam feitas está na incapacidade ou falta de conhecimento de líderes em oferecer respostas que satisfaçam a si próprios, quanto mais àqueles que fizeram as perguntas.

Na vida cristã não podemos omitir as respostas, independentemente do tipo de pergunta que é feita. A Palavra é lâmpada para os pés e luz para o caminho e, por isso mesmo, não se podem temer respostas concretas, sóbrias e coerentes sobre quaisquer temas que possam aparecer. Muito melhor, ainda, que respostas prontas, como as marmitas, são ajudar o outro a encontrar as respostas na Palavra. As descobertas se tornam propriedade daqueles que encontraram o que estava escondido. Precisamos parar de subestimar a capacidade de adolescentes em compreender o evangelho de uma maneira clara e suficiente para moldarem suas vidas em torno das Escrituras.

Como diz o próprio Sttot, Deus nos criou como somos. Ignorar qualquer das nossas capacidades dadas por Deus para sua glória é um atestado de rebeldia contra o Criador.

Crer é também pensar, e se ajudarmos nossos adolescentes a pensarem no que creem, a fonte de respostas para todas as situações brilhará como luz resplandecente, como o equipamento das estradas que reflete a luz do veículo e mostra pra aonde vai a pista e onde estão as curvas, permitindo que a jornada cristã seja feita com consciência e segurança.

Não os impeça de perguntar, questionar, pensar, e seja um instrumento de Deus para que eles se tornem proprietários das descobertas que fizerem ao investigar, avaliar, elaborar, pensar de acordo com as Escrituras. Aí, sim, teremos uma geração comprometida com o reino, e não com o evento; comprometida com a fé, e não com a emoção; comprometida com a verdade, e não com a fantasia; comprometida com a evangelização e não com o entretenimento.

 

[i] CORTELA, Mario Sergio. Não nascemos prontos! Provocações filosóficas. 6. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

[ii]  Rodolfo Gois é diretor pastoral do TeenStreet Brasil e pastor da IPIB de Maringá, PR.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s