TODAS AS RELIGIÕES SÃO IGUAIS?

A definição de religião de forma clara, comum, universal, que expresse todas as suas dimensões, não existe. Alguns sociólogos[i] propõem uma definição geral de religião, observando três aspectos do comportamento religioso em todo o lugar: crenças, moralidade e liturgia; ou credo, código e culto; ou palavras, obras e adoração. Mas não passa de uma descrição.

A história da humanidade confunde-se com a história das religiões, nas quais já o homem primitivo ia buscar razões para a explicação de sua vida. Esse instinto de procura da divindade é como um elo escondido na alma de todo ser humano, que se perpetua como faísca à procura de suas origens divinas. Ao elaborar este texto, não pretendemos fazer comparativo de religiões, mas ajudar os leitores, de forma lógica, sem emoções, a desenvolverem um senso crítico a respeito de certos mitos existentes, tais como “a religião que fala em Deus é boa”, “todas as religiões são boas”, “a religião é para os ignorantes”, “religião é ópio do povo”, etc.

“O livro das religiões[ii] – As grandes ideias de todos os tempos”, lançado pela Globo Livros, informa que o materialismo nunca esteve tão presente na sociedade quanto nos dias atuais, mas ainda assim, mais de três quartos da população mundial se reconhece como seguidor de algum tipo de credo religioso. Desde tempos imemoriais, a religião tem se mostrado um elemento tão indissociável e necessário da experiência humana quanto à linguagem, exercendo o importante papel de ajudar o ser humano a organizar a vida, a compreender seu lugar no mundo e a buscar significado e propósito para a existência. Mas como surgiu o fenômeno da religião? O que explica sua onipresença geográfica e cultural desde a Pré-História? Quais as bases comuns de todos os credos? Quais as diferenças irreconciliáveis entre eles? Como se ramificaram e se estabeleceram como grandes sistemas espirituais, filosóficos e morais de alcance mundial? O que fizeram para dar resposta às mudanças sociais e aos avanços científicos ao longo dos séculos?

O tema suscita um volume de questionamentos tão grande quanto o número de denominações religiosas criadas pelo homem. “Todo homem tem necessidade de deuses”; “todas as religiões são iguais”; “Deus e a humanidade estão em exílio cósmico”; “varrendo a poeira do pecado”; “podemos construir um lugar sagrado”; etc.; estão entre as dezenas de frases explicativas das crenças primitivas, surgidas na Pré-História, crenças milenares e clássicas, como o hinduísmo, o budismo, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, até as religiões modernas que se disseminaram a partir do século XV.

Na história da humanidade muitas guerras “santas” foram travadas e milhões de pessoas assassinadas em nome da religião. A partir dos anos 70 d.C., os judeus foram expulsos de Israel e enfrentaram exílio e perseguição; na Idade Média, a Igreja Católica Romana perseguiu e matou cristãos que se rebelaram contra o poder papal em Roma; a mesma Católica empreendeu, mais tarde, as Cruzadas, a fim de defenderem Jerusalém dos muçulmanos; depois veio o Holocausto, com milhões de judeus mortos pelos nazistas, a pretexto da sua religião; atualmente, o mundo está assistindo inúmeros atentados terroristas, perpetrados por grupos islâmicos radicais que tentam impor a religião do Islã às suas nações; estes são apenas alguns exemplos da religião alienante e dominadora.

Para Êmile Durkheim[iii], religião é um fato essencialmente coletivo. Diz ele: “Religião é um sistema unificado de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, isto é, a coisas separadas e proibidas; crenças e práticas que unem numa comunidade moral chamada igreja, a todos aqueles que a elas aderem”. Religião vem dos termos latinos relegere (re-ler), ou religare (re-ligar).

Para Freud, a religião nada mais é do que a projeção infantil da imagem paterna. Ela é uma ilusão, não porque seja má em si, mas porque tende a levar o homem a fugir de sua realidade e contingência humanas.

Da mesma forma, Agostinho entende que religião vem de re-ligar, do mundo da interdependência, em que nada é solitário, muito menos o homem. Quando vemos a religião como re-ligar, entramos no campo da função, da funcionalidade da religião enquanto prática que garante a salvação do homem. Atrás do batismo numa igreja cristã, do rolo da Torá numa sinagoga dos judeus, ou de peregrinos reunidos diante da Caaba em Meca o que há de comum? Com certeza há a idéia do sagrado.

Oportuno é citar uma fábula[iv] sobre as religiões, escrita por Shafique Keshavjee, muito impressionante, uma vez que as Escrituras Sagradas dizem que “um homem deve amar sua mulher, assim como Cristo amou a Igreja” (Efésios 5:25):

“A pulsão sexual e a pulsão espiritual são as duas faces de uma mesma moeda. E essa moeda é aquela que o próprio Deus cunhou. Na carne do ser humano está inscrita uma pulsão biológica e afetiva que o faz sair de si mesmo para acolher um outro, uma outra. No espírito do ser humano está inscrita uma pulsão metafísica e espiritual que o faz sair de seu ego para descobrir o Outro por excelência, Deus. Da mesmo forma que uma mulher pode ficar obcecada pelo rosto de um homem e um homem pelo de uma mulher, Deus é o grande Sedutor que obceca a alma humana. Sem essas duas pulsões que se encontram interligadas, a vida seria aborrecida, centrada sobre si mesma.”

Por último, indagamos se Deus tem religião? Ele elegeu uma como essencial para a felicidade do homem? Sabe-se que a partir do advento na Nova Aliança em Cristo Jesus, surge o Cristianismo, acusado pela mídia secular, explícita ou implicitamente, de exclusivista, intolerante, elitista, farisaico, dogmático, etc. Porém, ao procurarmos na Bíblia o conceito de religião, só encontramos no Livro de Tiago, cap. 1, verso 27, o que o apóstolo diz: “A religião pura para Deus é visitar órfãos e viúvas em suas necessidades, e guardar-se da corrupção do mundo”. Outro exemplo de religião é a praticada pelo Centurião Romano Cornélio, no cap. 10 do Livro de Atos dos Apóstolos, que sendo temente a Deus, praticava esmolas e fazia orações, chamando a atenção do Criador, que lhe enviou o apóstolo Pedro para anunciar o Evangelho da Salvação e, assim, fosse salvo, bem como toda a sua casa.

Isabelle Ludovico[v] faz referência à religião como uma vida legalista e hipócrita que muitos crentes levam, pelo fato de condenarem certas atitudes nos outros, tais como dançar, beber, etc., mas camuflam labirintos em seus corações que os levam a uma vida deprimida, falsa e alienada. As igrejas constroem guetos onde fazem separação entre os “salvos” e o “mundo”; constroem um modelo hierárquico semelhante ao judaísmo, onde a pregação consiste em melhorar o comportamento, ou combatê-lo; apresentam Deus como um ditador, onde as promessas são transformadas em obrigações.

Ser cristão, no entanto, é conhecer a Verdade como uma pessoa, e não como um dogma. É a certeza de ser amado de Deus, liberto da escravidão do medo, sendo motivado por isso a ir em direção ao próximo. É crescer no conhecimento de Deus, na profundidade do Seu amor, que permita se sentir amado como é: humano, com erros e falhas.

Conhecer-se a si próprio liberta o cristão da tentação de ser o que não é; livrando-o das culpas provenientes das tentativas de justificação dos erros, muitas vezes acusando e atacando outros para se justificar. Ao priorizar a transformação interior, o crente vai aumentando sua intimidade com Deus, sendo capacitado a equilibrar liberdade com santidade e, dessa forma, tornando-se o sal do mundo em vez de se refugiar num gueto.

Ao compreendermos que igreja é onde dois ou três estão reunidos em nome de Jesus, que o templo é o coração, que a adoração é em espírito e verdade; então, o Reino de Deus está presente e o Amor triunfa. Não estamos falando de um Deus que as religiões disputam, ensinam ou impõem; Ele não invade ninguém: apenas espera ser encontrado. Vida cristã não é submeter-se a padrões legalistas, mas parecer-se com Cristo, contando sempre com a presença consoladora do Espírito Santo para ajudar na caminhada, sujeita às limitações e sofrimentos da condição humana.

[i] Manual de Defesa da Fé/Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli. Editora Central Gospel. Rio de Janeiro, 2008. P. 537.

[ii] O livro das religiões / Tradução de Bruno Alexander. 1 ed. São Paulo: Globo Livros, 2014.

[iii] Texto disponível na Web em: http://pt.slideshare.net/frhuan/psicologia-da-religio-filipe-rhuan, acessado em 14 de abril de 2014.

[iv] WONDRACEK, Karin – A Religião e seus Destinos, http://www.cppc.org.br/index.php?option=com_content& task=view&id=303&Itemid=114

[v] SILVA, Isabelle Ludovico da. Psicóloga com especialização em Terapia Familiar Sistêmica. Artigo A Religiosidade que adoece e a fé que restaura; acessado em 12 de maio de 14, em: http://www.cppc.org.br/index.php? option= com_content&task=view&id=256&Itemid=114

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